sexta-feira, 2 de junho de 2017

Carta a mim mesmo antes de ir ao Vietname

Pequeno M.,

Nunca vais ler esta carta, mas era bom que o mundo tivesse avançado tanto que o conseguisses. Estás em 1994, penso que é uma quarta-feira e estás sentado à mesa da cozinha a comer um papo-seco, sentado à cabeceira - no lugar que é do pai, mas estás a aproveitar ser hora do lanche e ele não estar - e estás a ouvir o fim do Gil Vicente - Benfica, a olhar para a rádio como se fosse uma televisão. Ficou 0-3, o Benfica ganhou o 30º título nacional e tu estás feliz, mas nem sequer estás louco de alegria porque já o comemoraste no 3-6 em Alvalade e depois no 2-1 do Marítimo ao Sporting, com golo do Vado. Não sei o que é que vais fazer até à noite, mas verás ainda um mini-resumo na RTP2, onde o comentador dirá que o 3º golo do Kulkov, a passe do JVP, é "a papel químico" do 4º golo em Leverkusen. És demasiado novo para perceberes os sinais de instabilidade que rondam o clube e és feliz. Tens 10 anos. Eu, que te escrevo, sou a tua pessoa com 33 anos. Não, não fui jogador do Benfica, lamento desiludir-te, se por acaso se abrir uma brecha temporo-espacial que te permita ler isso. Sou médico, vais ser médico. Não vamos jogar no Benfica, apesar de ainda sonhar com isso, 23 anos depois.

Pequeno M, escrevo para que te prepares. Hoje é o teu último dia feliz como Benfiquista até daqui a muitos anos. Não sabes, nem podes saber, o pesadelo inenarrável que vais passar, mas escrevo-te do outro lado, do fim de uma era de tal modo negra que é melhor esconderes esta carta do nosso pai, porque temo que ele não aguente. É assim, puto, não há maneira de te dizer isto sem te magoar, mas nos próximos 5 - sim, cinco - anos, o Porto vai ganhar sempre o campeonato. Vais odiar de morte - com uma raiva que nem sabias que tinhas - um brasileiro chamado Jardel, uns cabrões que hão-de jogar por nós - Zahovic e Drulovic, além desses carniceiros do Jorge Costa e Paulinho Santos. Vais odiar, ao ponto de teres calafrios, o som de uma corneta que faz assim:

"Nanananaaaaaaa!... Nanananaaaaaa! Nanananananananaaaaaaa!....", ao ritmo do "When the saints go marching in", mas muito mais rápido, mesmo à parolo. Vais aprender a tirar rapidamente o som à televisão e vais detestar esta imagem ao ponto de teres fantasias quase sexuais que alguém do Benfica festeje um dia um golo assim. 



E perguntarás: mas esse Jardel é assim tão bom que ganha ao Rui Costa, Paneira, JVP, Schwartz, Isaías, Mozer, Mostovoi, Kulkov e Iuran? (Suspiro) Pequeno M.: se tiveres força e poder, mesmo com 10 anos, por favor vai até Lisboa e tenta assassinar o nosso próximo treinador e internar as pessoas da direcção, porque os próximos anos vão ser uma sucessão de humilhações e o teu pequeno grande coração vai depositar níveis completamente anormais e irracionais de fé e esperança em pessoas que não têm nível para jogar no Benfica. Estás a ver aquele lateral cepo, o Pedro Henriques? Imagina que são todos como ele. Durante anos. Vais demorar anos a perceber, mas tu vais acreditar que gente completamente incapaz (daqui a uns vais ficar incrédulo, miúdo, a sério) pode ser campeã ou ganhar um jogo ao Porto. E mesmo quando esses incapazes se superarem, vai aparecer um árbitro e tu vais ficar louco de raiva e chorar e odiar futebol ainda mais. Vai ser horrível.

E depois? - perguntas tu. Depois vai acontecer uma coisa que tu achas impossível: o Sporting vai ser campeão. Sim, o Sporting. A sério. Eu sei que é uma quarta-feira, que esse pão te está a saber bem (é como se ainda me lembrasse do sabor), que a rádio te traz notícias maravilhosas e que achas que vais passar toda a tua vida sem ver aqueles gajos a ganhar um campeonato, mas desilude-te. Esse dia chegará. Duas vezes. (Sim, duas!). Miúdo, antes de voltares a ganhar, até o Boavista vai ser campeão. A lista de derrotas e traumas vai ser gigantesca: levar 5 do Porto na Luz, acabar um ano em sexto lugar, ficar dois anos sem ir à Europa. Para o ano vais ao S. Luís levar 4-1 do Farense com o King a titular (pelo Farense. Depois vamos nós comprá-lo). Vais perder dois jogos com o Gil Vicente, golos de um Mangonga. Vais odiar para sempre uma equipa chamada Celta de Vigo porque te vão dar 7-0 na Taça UEFA. Vais perder 3-0 com o Marítimo com hattrick de um tipo chamado Lagório. Vais ver o Tó Neves vestir a camisola do teu clube. Vais ser roubado em vários jogos que te vão fazer crer que o mundo inteiro está contra ti, incluindo um jogo no Bessa onde um avançado teu sofrerá perto de 30 faltas com o central que o marca a levar amarelo nos descontos - o árbitro desse jogo é hoje presidente da Liga. Vais ser crente ao ponto de sonhar que um tal de João Tomás é a solução para os problemas da tua vida. Vais ter o mesmo processo com Paulo Nunes, Donizete, Martin Pringle, Roger e Dean Saunders. O Cadete vai jogar no Benfica. O Marinho vai jogar no Benfica. O Vítor Paneira há-de marcar ao Benfica. O João Pinto há-de jogar e ser campeão no Sporting. Vais ver um desfile de treinadores interminável. Vais ter um presidente louco, que há-de criar uma equipa de polo aquático com o nome do Glorioso.

Vais entrar num desespero que numa determinada altura da tua vida vais ao cinema com o D. - que ainda não conheces - sempre que estiver a jogar com o Benfica, porque já não aguentam. Ao intervalo vão-se agarrar a uns telefones que andam que tu não sei se já viste nos filmes e vai estar lá escrito "Perdemos 0-2." - o jogo foi com o Alverca na Luz e vários milhares de pessoas que passaram aquilo que tu ainda vais passar gritaram "E ó Toni, mete o Mawete". Um dia perceberás o surrealismo de tudo isto. 


Puto, espero que estejas a ler isto sentado, mas vais ter que ver o Porto ganhar troféus europeus (mais do que um...). Vais achar que ganhar-lhes é impossível, vais desejar nunca ter gostado de futebol, vais sonhar vezes sem conta com essa mesa, com esse rádio, com esse papo seco, com esse momento. Vais querer fugir para esse canto, para essa equipa, milhares de vezes. Vais chorar muitas vezes no quarto sozinho porque hás-de não ter idade para chorar em público por causa de futebol. Agarrar-te-às à cassete do Record da época de 1993/94 ao ponto de saber partes de cor e de saberes dizer o onze do 3-6 em Alvalade como um mantra que te leva para um lugar futebolisticamente feliz: Neno, Veloso, Mozer, Hélder, Kennedy; Abel Xavier, Paneira, Isaías, Schwartz; Aílton e João Vieira Pinto.

Já estou num ponto onde só espero que não haja tecnologia no mundo que te faça ler isto, mas perguntarás: "Porque é que eu cresci ao ponto de ser um anormal tão grande que ache que preciso de ler isto assim? E quem é o Donizete?". Porque quero dizer-te que sei o que vais sofrer. Que vais guardar cicatrizes para a vida. Que aquele som da corneta ainda me atormenta. E porque quero dizer-te que - por muito que a determinada altura pareça impossível - vamos dar a volta. O Benfica vai voltar a levantar-se. Eu sei que ao som do corneteiro das Antas tudo parece impossível, mas ainda verás o Benfica tetracampeão.

Esse inferno, esse "Vietname" terá um epílogo (vai ao dicionário, pequeno M., anda lá) absolutamente trágico em 2013 - recuso-me a dizer-te o que vai acontecer - mas é numa época onde a esperança já é legítima. Eu escrevo-te já depois disso, de uma outra mesa, já sem rádio, mas com a felicidade com que tu estás. De campeão para campeão. 


Pequeno M., escrevo-te sobretudo por uma coisa. Na verdade não há nada que nem tu nem eu possamos fazer para evitar a tragédia que se vai abater sobre nós. Caber-te-à (ou coube-me a mim) crescer e viver a amar um clube no pior período da sua história. Num pântano de merda (sim, podem escrever-se palavrões, mas não digas à Mãe), como se fossemos um toxicodependente que está a ressacar no meio de uma viela e que teima em sonhar com a vida que já teve e que quer voltar a ter. Mas como tu nem eu podemos evitar essa trágica infância, adolescência e início de vida adulta, cabe-me a mim e aos da minha geração que jamais alguém a esqueça. O horror de equipas, o terror de ver o Benfica jogar e o gozo dos rivais. Os pequenos traumas (como um União de Leiria - Benfica onde o Tiago e o Bilro dão quatro pontapés no Sabry com o jogo interrompido sem o árbitro fazer nada) ou os grandes, como o estádio das Antas, o corneteiro, ou ganhar ao Boavista e ver o Sporting campeão.

Não há povo que sobreviva sem memória e o que te venho dizer é que nunca esquecerei o que vais viver. O meu sonho é vingar-te. É que o Benfica nos pague a dobrar em alegrias tudo o que viveste. Ainda falta muito, mas o principal é começar. Sempre que ganhamos penso em ti, pequeno M. Se leres esta carta, sonha com a alegria com que te escrevo agora. 

Um grande abraço de mim para mim,

M. adulto

PS: Não sei se te interessa, mas vais casar e ter pelo menos um filho. Mas não penses muito nisso agora, vai ver o golo do Kulkov.



Benfiquistas da minha geração, se o Tetra já vos deu estômago, cliquem neste vídeo do Memória Gloriosa. Estão por vossa conta e risco:



1 comentário:

  1. Mais um excelente texto, como sempre!

    Como li algures no twitter um dia destes "tivemos que ir ao Inferno buscar as chaves do Paraíso". 4 anos já recebemos de volta, falta pelo menos mais 11 para vingarmos tudo o que sofremos.

    E a memória serve para que nunca mais se volte a cometer os erros que foram cometidos. Nunca mais pode o Benfica voltar a passar por um novo "Vietname"!

    Ps: Eu cedi a larga maioria dos conteúdos desse documentário, mas ele foi realizado pelo user "dfernandes" do fórum Ser Benfiquista. O crédito a quem o merece ;).

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