terça-feira, 23 de maio de 2017

O que eu quero do próximo treinador do FCPorto

Nuno saiu. Pronto, mais um. O balanço está feito e sinto que algo pode estar ainda profundamente pior do que eu esperava quando vejo portistas a festejar a saída de um treinador como se houvesse motivo de festa. A saída de Nuno, uma saída a bem e que nos deixou menos mal do que há um ano, devia ser motivo apenas de reflexão. Estamos tristes por termos perdido o campeonato da maneira que perdemos e podemos começar já a perder a próxima época ao alinhar na cartilha de alguns adversários que nos querem fazer crer que criticar o trabalho de Nuno é admitir que não perdemos sobretudo por causa das arbitragens.

Nuno saiu. Foi só mais um, mas já são muitos. E é preciso ir buscar outro rapidamente. Não podemos dar este ar de quem não sabe bem o que quer, de quem anda à procura mas não encontra. Mas também precisamos de pensar bem. Saber escolher. Não repetir erros. Definir, antes de um homem, um projecto. O que queremos do FCPorto? Ganhar. O que precisamos para estar mais perto disso? De ser o FCPorto. Qualquer homem, qualquer projecto, que se afaste da nossa linha, não é bem-vindo. Não quero ninguém que pense primeiro em si do que no clube que representa. Já cometemos esse erro com Lopetegui.

Mas o que é isso de ser o FCPorto? Nuno incutiu na equipa a tal raça, a tal união. E temos de, não só mantê-la, mas melhorá-la. Não chega ver a equipa a agradecer o constante apoio dos adeptos no fim do jogo. O que precisamos é que essa equipa se torne novamente a extensão dos adeptos em campo. De que me vale ver os rapazes muito unidos nas redes sociais se, quando um deles sofre um penálti, não vejo nenhum dos outros a ir lá lutar por ele, por nós? Excepção feita a Maxi Pereira, basta de meninos que sabem jogar bem à bola, mas que parecem autistas de tão alheados que estão do que acontece aos outros durante os 90 minutos. De que me vale irem juntos para os treinos se um deles sofre uma entrada dura, fica lesionado, e não vejo ninguém a não largar o adversário que o árbitro poupou? Se acham que isto é feio, então têm muito a aprender sobre o que é uma equipa.

Já achei que fosse só ingenuidade, agora parece-me mais que é uma trajectória que o clube pretende. E porquê? Se seremos menos bem interpretados do que outros que o fazem com tanta mestria? Claro, corremos esse risco. Mas queremos mesmo perder novamente por, como se diz na minha terra, sermos comidos? O que falta, então? Não basta levá-los ao museu. Os nossos troféus podem mostrar-lhes a nossa dimensão, mas não lhes contam a nossa história. Como é que, de repente, deixámos de ser os melhores a transmitir o que é este clube a quem chega? E como é que admitimos que, quem chega, nem queira saber disso? Brahimi, por exemplo. Excelente jogador. Tecnicamente, do melhor que vi. Muito útil num plantel a quem faltam estrelas. Mas ele está aqui para quê? Para nos dar títulos? Não me parece. Ao que tudo indica, e ele nunca o escondeu, está aqui para chegar a outro campeonato. E é isto que queremos? Sim, dependemos dos melhores jogadores e não os podemos excluir por serem estúpidos. Mas, em três anos de FCPorto (o que, hoje em dia, é uma eternidade), como é que ninguém lhe conseguiu passar nada? Com quem é que o Brahimi conversa todos os dias? Quantas vezes é que ele anda na rua e sente o que os adeptos sentem? E os capitães? Por que raio o FCPorto não tem um capitão como deve ser?

O futebol mudou, os jogadores mudaram muito, mas precisamos de alguém que assuma desde logo que só recuperando a nossa mística voltaremos a ganhar. Mas atenção: isso também não chega. Qualquer treinador que venha com o rótulo de São Salvador do Portismo e da Exigência de uma Entrega Sempre Absoluta, como se alguém ganhasse jogos só por querer muito, será apenas o repetir do erro deste ano.

A verdade é que a Liga portuguesa está cheia de bons treinadores. Este campeonato, aliás, fora os três grandes, teve jogos de futebol com uma qualidade fora do normal. Gosto desta nova geração, que quer jogar à bola, que arrisca, que não tem medo, nem estraga o jogo que tanto adoramos. Gosto de treinadores que estão a arrumar com os Josés Motas e Ulisses Morais desta vida. Gosto de treinadores que fazem qualquer Rúben Ribeiro parecer uma estrela, quando, na verdade, a estrela não é o Rúben Ribeiro, mas a equipa que o treinador construiu. Gosto muito disso: de uma ideia que transforma uma equipa e potencia os jogadores de forma a já nem sabermos bem quem é o melhor, quem é o pior, quem é o Brahimi, quem é o Depoitre. Mas a má notícia é que isso não chega. Não foi na altura ideal, é certo, mas Luís Castro pegou no FCPorto e não o conseguiu. Um falhanço que não tornou Luís Castro pior treinador, mas tornou o FCPorto um pior clube para alguém treinar. Não podemos voltar a cometer o erro de arriscar na inexperiência às cegas, porque nem todos os Villas Boas e Vítores Pereiras correm bem. Já cometemos esse erro com Paulo Fonseca.

Entretanto, arrancámos este ano com uma nova política de comunicação, que aproximou o clube dos adeptos ao mesmo tempo que nos tornou mais atentos. E temos de, não só mantê-la, mas melhorá-la. Basta de deixar os treinadores desprotegidos, a queixarem-se sozinhos, sem força, frágeis. Nuno já teve um pouco do que, por exemplo, tenho a convicção que teria feito do Lopetegui do primeiro ano campeão. Queremos mais, precisamos de mais. Mas o treinador não pode ser um mero espectador. Já cometemos esse erro este ano. Só que também não pode ser um lacaio. Precisamos de alguém que compreenda o jogo fora do relvado, mas que tenha a coragem de assumir tudo o que se passa dentro dele. É uma característica que parece de simples descrição, mas penso que até é a mais difícil de conseguir.

Dito isto, não faço a mínima ideia quem será o próximo treinador do FCPorto. Espero ter sido clara nas opções por mim a descartar. E espero que quem decide seja muito melhor do que eu nisto. E é, ainda tenho essa certeza. Sei que precisamos da Liga dos Campeões porque precisamos de dinheiro, precisamos de vender jogadores porque precisamos de dinheiro, precisamos de apostar nos jovens da casa porque precisamos de dinheiro, mas acho que está na hora de ver um bocadinho além disso. Precisamos de ganhar. Precisamos de derrubar o rival. Precisamos de ganhar!

E escolher o treinador que o consiga é só o primeiro passo. Precisamos de construir um plantel melhor. Precisamos de formar jogadores que conheçam o nosso clube. Precisamos de manter jogadores que se identifiquem connosco. Precisamos de transmitir-lhes o que queremos para o FCPorto, o que temos de ser para vencer. Precisamos de definir, de cima para baixo, qual é, afinal, o caminho que nos levará de volta às vitórias: se queremos ser o FCPorto regional, aguerrido e lutador, ou não. Precisamos de assumir responsabilidades e de afastar os inimigos internos, quando o são verdadeiramente e não quando confundimos quem está atento, quem não alinha na mensagem única, com os verdadeiros inimigos. Precisamos de ficar mais fortes, de dentro para fora, para que nos convençamos e convençamos os outros de que vamos dar muita luta. Precisamos de colocar o clube à frente de tudo e todos porque vêm aí anos muito difíceis. Por isso, precisamos de um treinador, de um plantel, de um presidente, de todos os adeptos. E lembrem-se: só estes últimos são insubstituíveis.

1 comentário:

  1. atacas o Brahimi da forma que atacas, tendo antes dito que os jogadores não defendem uns aos outros, quando eu vi o Brahimi em n conflitos ao longo da época a defender companheiros de equipa tendo sido até expulso por causa disso LOL

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