quinta-feira, 25 de maio de 2017

Lorenzo, o último romântico

Agora que somos pais, a pergunta que mais nos fazem - quase imediatamente a seguir à idade, porque as pessoas perguntam sempre a idade dos bebés - é de que clube o nosso filho vai ser. Sorrimos, brincamos com o assunto e fica um silêncio desconfortável. A verdade é que o nosso filho não é sócio de nenhum e não dorme com pijamas de nenhum clube. Os ataques só devem começar quando ele for mais velho e aí um de nós sofrerá um desgosto enorme. Dado que desde o nascimento dele o único troféu de futebol que entrou no museu do FC Porto foi uma segunda liga conquistada pela equipa B (aliás, é o único troféu de futebol que ganharam desde a abertura do museu. A minha mulher rectifica-me e diz que ganharam um troféu - com nome estrangeiro e tudo - há pouco tempo. Pobrezinha, já está maluca de todo.), tenho a secreta esperança que o FC Porto desapareça durante a infância dele, ficando ele do Benfica porque a mãe já não tem clube.

Ora, o que as pessoas que não nos conhecem não sabem é que nós não imaginamos que o P. não seja ou do Benfica ou do Porto e que o nosso horror nem é que ele fique do Sporting - porque nem sequer colocamos essa hipótese, há limites - mas que ele seja, sei lá, do Chelsea. Ou do Paris-Saint-Germain. Ou de uma equipa chinesa que eu nem sei o nome. Ou do Red Bull Leipzig. O futebol do P. não vai ser ouvido na rádio, com jogos à mesma hora, vai ser o futebol dos trinta jogos na TV por fim-de-semana, em que o Belenenses lhe vai dizer menos do que o Manchester City. E isto põe-nos desconfortáveis, porque o futebol, cá em casa, é uma coisa mágica, que deve ser vivida com a família, com os amigos, com os colegas na escola. O futebol é a nossa máquina do tempo. Quero que ele se lembre de jogadores enquanto estava na primária, que recorde com exagero o primeiro golo que viu no estádio, que me pergunte quem são os cinco jogadores do Benfica que ganharam os quatro campeonatos do tetra e que imagine, por isso, o André Almeida como o melhor lateral de sempre do futebol português. Se o P. gostar do Real Madrid e do Ronaldo (Eusébio nos guarde), isso vai equivaler a uma daquelas simpatias estranhas, como gostar dos Charlotte Hornets na NBA. Ou seja, vai ser só estranho, artificial e sem graça nenhuma.

Numa era em que não há símbolos, onde se fala mais dos valores de ordenados e de comissões do que de jogadores de futebol - apesar de nunca ter havido tanto futebol tão acessível - o que nós queremos é que o P. ame um clube como Lorenzo ama o Torino. 

Lorenzo com o cromo de Belotti, o seu ídolo do Torino

A história já corre a internet, mas vale a pena pensar nela e esmiuçá-la: Lorenzo é o filho de Bonucci, central da Juventus. Bonucci é, para mim, o melhor central do mundo da actualidade. Sentido posicional ímpar, rápido, forte e com uns pezinhos de ouro para sair a jogar. É titular da selecção italiana, conquistou o título pela Juventus hexacampeã e vai jogar dentro de uns dias a final da Champions. E o filho mais velho é do Torino. Que ficou em nono na série A (fui ver ao google). Do Torino, que nenhuma pessoa em Portugal (tirando o Rui Tovar e mais três ou quatro doidos) deve conseguir dizer dois jogadores do onze titular. Lorenzo é fã de Belotti, que eu não reconheceria na rua. E se o Bonucci não tem poder para o filho dele ser do clube dele, não sei que poder teremos nós sobre o clube do P.


Lorenzo, durante a festa do scudetto da Juventus

Mas a imagem que nos fez apaixonar-nos por Lorenzo é a sua entrada em campo durante a festa do título da Juve. Lorenzo, vestido à Juventus, entra em campo cabisbaixo, humilhado. O irmão mais novo corre para o pai, recebe a medalha, goza aquilo que qualquer miúdo da Juventus dava um rim para viver. Lorenzo caminha como se estivesse nu, na escola, com toda a gente a olhar. Apaga as lágrimas, não olha para cima. Não veste uma camisola com o seu nome nem o do pai. Provavelmente pensa nos amigos do Torino que amanhã olharão para si, embaraçados. Não sabe o que lhes há-de dizer, como desculpar-se por ter que estar ali. Que culpa tem ele de ser filho de Bonucci? Não podia o pai ser bombeiro ou polícia ou advogado, como os pais dos outros meninos? 

Se o meu pai fosse um craque do Benfica, era provável que eu não conseguisse fazer a primária ou brincar ou viver, em geral. Não ia ser capaz de viver com a excitação. Um pequeno exemplo: o meu pai tem um amigo que é o Ricardo. Não tem clube, não percebe puto de futebol. Mas é um sósia de Ricardo Gomes. Quando eu tinha quatro anos e conheci o Ricardo, ia morrendo. O meu pai gozou o prato e disse que aquele era O Ricardo. Era, provavelmente, a única visita lá de casa a quem eu ligava. Pedia-lhe para dar toques e ele dizia que não podia. Chorava na escola quando não acreditavam em mim quando dizia que o Ricardo Gomes tinha lá jantado. Até ao dia de um Roma-Benfica (1-0, Voeller?) em que o Ricardo apareceu lá em casa e ruiu o mito. Foi das minhas desilusões de infância.

Se isto foi assim com Ricardo que nem era o Ricardo, se o meu pai fosse o Luisão, é provável que eu ainda estivesse na Luz, sozinho, a festejar o Tetra. Com uma alegria igual à de Matteo, o irmão mais novo de Lorenzo, que um dia vai ter um doente da Juventus a pedir-lhe todos os detalhes desta festa, a escavar-lhe a memória só para se aproximar um bocadinho deste dia, para sentir que também lá esteve.
Lorenzo, provavelmente, lembrar-se-á melhor da festa. Não só por ser mais velho, mas porque as recordações más são mais difíceis de apagar que as boas. Lorenzo vai-se lembrar dos cheiros, da impressão que lhe fez a camisola, da aberração dos cânticos, do nó do estômago que só passou quando chegou a casa e que só volta quando se lembra daquele dia. Para estar na pele de Lorenzo, tenho de me imaginar filho de um jogador do Porto ou do Sporting e ser assim. E ter que viver aquilo. Entrar em Alvalade com o Sporting campeão, as claques a cantarem, a alegria na cara de pessoas que eu quero ver sempre tristes. E aquela camisola horrível no meu corpo. As listas, aquele verde horroroso. Mesmo com uma camisola interior a proteger-me, é aquela camisola. E ter que andar naquele estádio, de mão dada, cheio de vergonha. Lorenzo, a tua dor é a minha. 

Lorenzo vê o Chelsea, o Leipzig, o PSG e não quer saber deles. Vê o pai a jogar na Juventus, pode ter os cromos da caderneta da Juventus todos assinados, pode ter camisolas, calções, botas, fatos de treino e meias da Juventus. Pode ir conhecer Buffon, Daniel Alves, pode pedir ao pai para trocar a camisola com Messi enquanto o marca. Mas Lorenzo quer ver o Torino-Sampdoria, quer tifar pelo seu Toro. Lorenzo escolheu o seu clube independentemente do pai, independentemente da lógica, independentemente de tudo. Lorenzo é um símbolo de resistência, um exemplo de que a paixão desinteressada por um clube, mesmo de que meio da tabela, é muito maior do que a lógica. O filho de LeBron será sempre do clube/franchise que o pai for. O filho de Cristiano Ronaldo será sempre do clube do pai, porque vai ver o pai acima de qualquer clube. Mas Lorenzo, o último romântico, é o Asterix que nos faz ter esperança. 

Enquanto houver Lorenzos, o futebol não morre. E é desse futebol que eu quero que o meu filho goste.

Uma publicação partilhada por Leonardo Bonucci (@bonuccileo19) a

Lorenzo, hoje, com Belotti, com o sorriso que nunca fará quando a Juve ganhar o campeonato


6 comentários:

  1. Gostava de antes demais, vós dar os parabens por serem uns optimos pais, não porque os meus não sejam, mas porque voçes ao contrario do que é normal, não impõem nenhum clube à criança. Eu sou um "doente" pelo FCP, nasci numa familia toda ela de Azul e Branco, e quando o meu irmão nasceu (há 4 anos) a primeira coisa que eu fiz foi correr para ir buscar um cartão de socio do FCP, ele com 4 anos é mais doente que eu, vai aos jogos, mas foge-lhe o porquê de não sermos campeões desde que ele nasceu (uma supertaça com o Paulo Fonseca, e e...).
    Esta história que contam do Lorenzo, podia ser de outro jovem qualquer de há 60/70 anos atrás, mas não! é a história de um miudo, que é do clube rival, do clube do pai, e que não têm ganho nada (0)
    é a mesma coisa, que os jovens de hoje com 16 anos serem do Boavista e não terem visto o clube ganhar nada., que têm a publicidade toda que lhe é vendida em casa pelo pai e restante familia (creio eu) mas mantém se qual asterix (espero que não se importe deste meu aproveitamento referencial) como um baluarte de que é possivel gostar-se sem saber porque de um clube que não luta por titulos.
    Um cumprimento especial para os dois, em especial para si pelo texto e pelo Tetra (sei pôr a boa educação à frente da "doença") e espero SINCERAMENTE, que a vossa criança (ou outras que venham) sejam felizes com qualquer das opções futbolisticas que escolherem.

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  2. És um grande contador de histórias (esta excelente até pelo tema!), aliás como a senhora sua mulher, que leio mais amiúde, infelizmente, às vezes, sem muita vontade! Mas... atrás dos tempos tempos virão! Abraço!

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  3. Manuel, grande texto! Obrigado.
    Mas estranho dares de barato que "Lorenzo escolheu o seu clube independentemente do pai, independentemente da lógica, independentemente de tudo".
    Não vou com o mito da criança "bom-selvagem", mas acredito que as crianças têm uma capacidade que nós vamos perdendo ao longo da vida de distinguir instintivamente o bem do mal. Porra... Ser da Juventus? Um clube que consegue ser ainda mais corrupto que o da tua querida esposa? Nem que tivesse jogado lá o pai e o avô e o bisavô... Cruzes...

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  4. Como Portista ferrenho que sou, imagino o quanto a sua esposa o ama para o continuar a aturar.....

    Agora mais a sério, sou Portuense e Portista até à morte, actualmente resido em Guimarães e uma das coisas que muito admiro nos Vimaranenses é o amor total ao seu Vitória, poucos terão dois amores (Vitória+Clube Grande), todos os miúdos/as sabem o hino do clube, todos o cantam desde o jardim de infância, idolatram todos os seus jogadores, abrindo somente excepção para o Ronaldo. As minhas duas filhas são Vimaranenses,a mais velha é Portista e não liga nada ao futebol, já a mais nova é Vitoriana de alma e coração, não suporta o Porto,Benfica,Sporting e acima de tudo o Braga (o grande ódio de estimação de todo o Vimaranense independentemente do seu fervor clubístico ). Nunca tentei impingir-lhes o meu amor pelo Porto, sempre foram livres para seguirem os seus corações.
    Não lhe poderei dar os parabéns pela conquista do "TRETA" pois não sou adepto da ARTE DE GAMAR......

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  5. Acho esta história muito perigosa para a juventus...no seu maquiavelismo vão tentar contratar o belotti para destruir qualquer esperança deste jovem "corrompido" e dar o exemplo.

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