segunda-feira, 22 de maio de 2017

Carta aberta a Nuno Espírito Santo

Escrevo-te um dia depois do fim do quarto campeonato consecutivo que não vencemos. Escrevo-te, portanto, no teu primeiro dia de férias e só não peço desculpa pelo incómodo porque este também é o primeiro dia do FCPorto de 2017/18.

Já tenho ouvido muita coisa nas últimas horas e decidi voltar ao blog para reunir algumas delas e descartar outras. Mas vou directa ao assunto: acho que deves sair. E acho que deves sair rapidamente, porque o teu primeiro dia de férias é o primeiro dia do FCPorto de 2017/18 e nós não temos tempo a perder.

Com isto, Nuno, não fiques a pensar que és a única vítima do nosso quarto campeonato consecutivo sem ganhar. O que mais temos nos últimos anos são vítimas de algo que está profundamente errado no nosso clube, que acabam por ultrapassar o trauma que é passar por este FCPorto e regressar ao seu trabalho até com bons resultados.

Apesar da minha pressa em escrever-te, confesso-te que não pertenço àquela maioria que opta por apontar desde logo o dedo ao treinador, porque é sempre o alvo mais fácil. Sim, tive problemas com Paulo Fonseca (não estava claramente preparado para o desafio); sim, tive dúvidas em relação a Lopetegui (gostava da ideia, não da prática); sim, desconfiei de Peseiro (e ainda hoje não me sai da cabeça que perdeu uma Taça para o clube no qual se apresentou umas horas depois). Portanto, sim, pertenço àquela maioria que é sempre muito exigente com os treinadores do FCPorto e quanto a isso não me peças para mudar, porque no dia em que deixarmos de o ser estaremos, aí sim, no fim de um ciclo.

Ora, resumidamente, o que quero dizer-te é que não perdemos este campeonato por tua causa. Não vou esquecer-me do que andei a dizer a época toda e, sim, tentaram afastar-nos muito cedo da luta, para depois consumarem essa tentativa quando falhámos. O que vou recordar desta época é que estivemos na luta, apesar disso. Mas estivemos na luta, também, apesar de ti.

Vamos começar por tentar esquecer as primeiras jornadas, quando éramos um conjunto de miúdos a chutar a bola para a frente e ninguém percebia o que querias. Dou-te essa vantagem. A verdade é que depois vimos o FCPorto crescer, sobretudo através de uma defesa mais forte, mais concentrada, uma base para algo que podia ser construído a partir daí. Só que ficámos por aí.

Acabámos o ano sem saber quem é o teu meio-campo e o que querias fazer dele. Além de Danilo, provavelmente o único titular indiscutível à frente da defesa, preferias a criatividade de Óliver ou o risco de Otávio? Preferias a força de André André ou a decisão de Herrera? Preferias os médios a descair ou os extremos a rasgar a lateral? Preferias alguém a transportar a bola ou a passá-la rapidamente para a frente? Preferias o meio ou as alas? Não sei, continuo sem saber. Querias mais e melhores jogadores? Tinhas o que fazer com eles? Hum, prefiro não arriscar a resposta.

E chegamos, então, ao ataque, o terrível ataque. André Silva até começou bem a época, mas parecia sozinho e não acertavas com a companhia a dar-lhe até que Diogo Jota decidiu marcar uns golos na Madeira. Pronto, assunto resolvido, seria esse então. Mas André Silva continuou a parecer sozinho (que é o que se diz de um bom avançado que dificilmente será um bom ponta-de-lança) e Diogo Jota não mais marcou os golos da Madeira. 0-0 atrás de 0-0, não sabíamos o que fazer além de reclamar os penáltis por marcar. Até que chegou Soares.

E resolveu-se o problema: ele marcava golos. Foi a nossa melhor fase: a defesa continuava segura e o ataque já produzia efeito. Assunto resolvido, terás pensado. Vamos assim até ao fim, quisemos nós acreditar. Só que o futebol é tramado, porque a mesma receita e os mesmos ingredientes nem sempre dão o mesmo bolo. Soares perdeu o efeito-surpresa para as defesas adversárias e saltou à vista a falta de soluções, de alternativas além da entrada do Rui Pedro mais por crença do que por lógica. E tudo falhou.

Mas não fiquemos pelas tácticas e pelo que os jogadores fazem delas. Falhámos muito porque não soubeste estar à altura dos momentos que exigiam o FCPorto que eu conheço. Mas, antes disso, deixa-me elogiar-te. Conseguiste recuperar muito do que tínhamos perdido nos últimos anos (e não falo só dos quatro em que não ganhámos, falo de coisas importantíssimas que perdemos mesmo quando ganhávamos): raça, vontade, união. E não só dentro de campo, porque é fora dele que continuamos a ter mais feridas por sarar. Devo e vou agradecer-te sempre o fim dos assobiadores compulsivos, as bancadas cheias dos nossos adeptos. Foste tu que conseguiste isso e, felizmente, houve uma política de comunicação que se juntou e que nos tornou, se não mais fortes, pelo menos mais atentos.

Estamos mais vivos do que há um ano e, vá, obrigada por isso. Mas não chega. Não podias ter tremido naqueles momentos. Não podias ter-te calado em certos momentos. Se precisares de uma imagem que to explique, não podias ter levado um empurrão e ficado quieto e calado. Não naquele momento, não contra aquele adversário. Se por um lado estamos - e estamos mesmo - convencidos que nos estão constantemente a empurrar, não podemos estar do outro a dar-lhes os parabéns por isso.

Portanto, volto a reforçar: acho que só podes sair. Não sei o que aí vem e só de ouvir portistas a pedirem Marcos Silvas até me arrepio. Não sei se começar de novo não nos deixará mais para trás novamente. Não sei quem poderá pegar nisto com técnica, força, conhecimento e experiência suficientes para derrubar os enormes obstáculos que nos colocam (ou que nós nos colocamos) à frente. Não sei por onde vamos. Só sei que não é por aqui.

1 comentário:

  1. "Se precisares de uma imagem que to explique, não podias ter levado um empurrão e ficado quieto e calado. Não naquele momento, não contra aquele adversário."

    Este foi para mim o momento em que perdi a fé no NES....
    resume tudo.


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