sábado, 10 de março de 2012

Somos todos FC Start

Várias, várias vezes, perguntam-me, com um ar superior, como é possível gostar tanto eu de futebol. Alguns, sabendo que sou de esquerda, atiram com o (fraco) argumento de que se trata do ópio do povo e de que eu contribuo para isso. Há pessoas que não percebem que o jogo não são só milionários tatuados que dizem alarvidades em frente às câmaras. É muito dificil explicar que há mais poesia no pé esquerdo de Leo Messi do que no mundo inteiro, mas há. E que há uma magia envolvente, um sem número de histórias, de lendas. É que no futebol, além de se sonhar, resiste-se. Os fracos derrotam os fortes. Os clubes dos ricos, do poder, perdem. E nas bancadas já se gritou muitas vezes pela liberdade.


(Mariano Amaro e José Simões, jogadores portugueses num Portugal - Espanha durante a Guerra Civil Espanhola que ao, ao invés de fazerem a saudação fascista, cerraram o punho)

Venho então falar do FC Start, uma equipa cuja coragem não terá ainda paralelo, e que representa, mais do que tudo, como onze homens podem, com uma bola, mudar o mundo.
Estamos em Junho de 1941 e os nazis invadem a URSS, ganhando Kiev aos soviéticos. Foram capturados cerca de 600 mil (!) soldados soviéticos. Naturalmente, o campeonato de futebol estava interrompido, com vários jogadores a cumprir serviço militar. Entre os soldados capturados estavam jogadores do Dinamo de Kiev que ficam assim forçados ao trabalho – escravatura que a guerra nazi obrigava.
O quadro é de miséria, desemprego, fome, assassinatos consecutivos. Um dia, Kordik, padeiro ucraniano com ascendência alemã – que o poupou à morte – está a andar em Kiev e vê o guarda - redes da sua equipa: Trusevych. Fanático pelo Dínamo de Kiev, contrata Trusevych para a sua padaria. Mas Kordik não quer o seu guarda - redes a fazer pão, Kordik, em plena II Guerra Mundial, enquanto as maiores atrocidades acontecem à sua volta, tem outro plano: ver o seu Dínamo junto outra vez. Começa assim a “caça” dos jogadores. Trusevych encontra sucessivamente vários companheiros de equipa (8 ao todo) e com mais 3 jogadores do Lokomotiv de Kiev forma-se o FC Start (o nome Dínamo estava proibido). Uma padaria é, de repente, o abrigo de uma equipa de futebol.

Hitler e os nazis têm várias obsessões, uma delas a demonstração da superioridade nazi no desporto, sendo os torneios de futebol frequentes. Após alguma discussão, os jogadores do FC Start decidem jogar contra os nazis. Em Junho de 1942, enfrentam os primeiros adversários. E mesmo com fome vencem: 7-2. Seguem-se outros, sempre com vitórias. A população local tem, finalmente, ídolos. Com a Resistência desfeita, num país atormentado pelos acontecimentos de Babi Yar, uma ravina que serviu de vala a mais de 30 mil judeus executados num só dia (!) pelos nazis, há, finalmente, alguém que derrota o mal, alguém que permite a libertação dos gritos contra a desumanidade e carnificina. Os nazis tornam os bilhetes mais caros para afastar a população, mas o FC Start já é a equipa da população.
Os adversários são batidos à vez, até chegar a Flakelf, a equipa – propaganda dos nazis. Apesar do árbitro alemão, da pancadaria e de tudo, o FC Start vence 5-1. A manobra de Kordik é descoberta e de Berlim pede-se a execução do padeiro e toda a equipa. Mas para Hitler e para os oficiais nazis, a superioridade ariana é mais importante e marca-se outro jogo para 3 dias depois.

 A 9 de Agosto de 1942, joga-se o segundo jogo entre a Flakelf e o FC Start. O árbitro é um oficial das SS e o ambiente altamente policiado. Antes do jogo, o árbitro visita o balneário do FC Start e lembra-lhes que devem seguir as regras nazis e deixa o aviso: se ganharem, morrerão. Não faço ideia do que se passou na cabeça daqueles jogadores e é quase insultuoso que o tente. Pessoas a quem tudo foi retirado: emprego, casa, amigos e família, têm no futebol, na hora e meia de jogo, as suas vidas – e a de tantos outros ucranianos – de volta. A dignidade, a liberdade, os seus empregos, casa, amigos e família, são lembrados em cada passe, em cada jogada, em cada golo, em cada vitória. Quando festejava os golos do FC Start, a população ganhava a guerra, arrasava a propaganda nazi. E esses homens, que não foram intelectuais, não escreveram livros, eram só homens, como nós (mas sem ser como nós) decidiram jogar. Decidiram que não cederiam.


Na apresentação das equipas, recusam a saudação nazi. Com a mão no peito, gritam "Fizculthura!", uma expressão soviética em prol da educação e cultura física. Está dado o mote para o escândalo. Apesar das benesses do árbitro, o FC Start chega ao intervalo a vencer por 3 – 1, espalhando o delírio nas bancadas.
Ao intervalo, nazis armados dizem-lhes que devem, que têm que perder. Mas estão 36 mil adeptos nas bancadas, morreram 33 mil em Babi Yar, e aquela gente invadiu as suas casas, as suas vidas. E aqueles onze homens decidem jogar.
O jogo acaba 5-3 para o FC Start com a humilhação final de Klimenko. Isolado frente ao guarda redes nazi, finta-o, e de baliza aberta, decide passar a bola para o meio campo outra vez. A humilhação é total, o estádio vem abaixo.
Eu já festejei muitos golos do Benfica, fico vermelho, sem respirar, grito e sinto-me vivo. Mas o que Klimenko fez deve ter feito chorar, deve ter feito viver. Destroçados pela guerra, sujeitos a tortura, obrigados a sentirem-se racialmente inferiores, não imagino a alegria, os arrepios, a felicidade dos adeptos que viram o FC Start. Não imagino o orgulho que esses homens sentiram com aquelas camisolas, não imagino, não consigo imaginar.

Depois do jogo, a Gestapo foi à padaria. Kordik foi torturado e assassinado à frente de todos. Só Goncharenko e Sviridovsky, que não estavam na padaria naquele dia, sobreviveram até à libertação de Kiev em 1943. Todos os outros foram deportados para campos de concentração. Trusevich, Klimenko e Putistin foram mortos em Babi Yar. Há um monumento em frente ao estádio do Dínamo que honra os heróis do FC Start e ainda hoje quem tem o bilhete daquele jogo tem entrada gratuita no estádio.
 Não existirá, decerto, maior acto de coragem na história do futebol mundial. Toda a magia, toda a aura que o jogo carrega está simbolizada neste jogo. Toda a beleza, toda a coragem, está tudo ali. A bola de Klimenko, que eu nunca vi, mas que construo vezes sem conta na minha memória, é mais arrepiante do que poemas ou canções. Deve ter sido como ver uma revolução. Imagino um qualquer ucraniano a sair do estádio e a olhar, pela primeira vez, um soldado nazi olhos nos olhos e de sorriso nos lábios.

 O futebol não é só o ópio do povo. É também o suspiro do oprimido. Somos todos FC Start.

(único registo fotográfico do FC Start)

29 comentários:

  1. obrigado por estes "esmagador" texto de cultura
    fizeste o meu fim de semana.

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  2. sem ironias, obrigado!

    o autor do comentário acima já disse tudo.

    ps:
    terá sido no FC Start que se inspirou o argumentista de "Fuga Para a Vitória"

    abr@ço
    Miguel | Tomo II

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  3. Impressionante! A história (da qual tinha total desconhecimento) e a forma como está contada! É por textos como este que tantos te seguem desde o Diário de um Ultra! Um abraço e faço minhas as palavras dos outros 2 comentadores: obrigado.

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  4. M. Tenho um livro sobre isto em inglês, conheces? A história é fabulosa.

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  5. Obrigado a todos!
    Penta: sim, foi neste jogo que se baseou o Fuga para a Vitória-
    Filipe: título? Onde arranjo isso? bookdepository?

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  6. Ontem não escrevi o título porque não me lembrava. Agora tenho o livro à mão: Dynamo - Defending the honour of Kiev, por Andy Dougan
    http://www.amazon.co.uk/Dynamo-Andy-Dougan/dp/1841153192
    Tens na Amazon, há-de haver noutros lados, imagino. Se tiveres dificuldades em encontrar, combinamos um dia na Luz e empresto-te.

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  7. essa historia eu ja conhecia , ma squando se le de novo vem tudo a imaginaçao do que se deve ter passado e sofrido esses jogadores que morreram com a sua honra e em paz , mas em comparaçao de agora com esses mercenarios que só jogam por dinheiro é uma vergonha , com tudo do bom e do melhor , medicos , comidas , remedios ,hoteis, e altissimos salarios e quando jogam duas vezes por semana reclamam, sao umas piadas

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  8. essa historia eu ja conhecia , ma squando se le de novo vem tudo a imaginaçao do que se deve ter passado e sofrido esses jogadores que morreram com a sua honra e em paz , mas em comparaçao de agora com esses mercenarios que só jogam por dinheiro é uma vergonha , com tudo do bom e do melhor , medicos , comidas , remedios ,hoteis, e altissimos salarios e quando jogam duas vezes por semana reclamam, sao umas piadas

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  9. Respeitosamente partilho o link no meu blogue!

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  10. Obrigado!!! É a única coisa que me ocorre dizer neste momento... Que post I M E N S O !!!!!!!

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  11. Esta é uma história do caraças e muito poderosa.Adorava ver Portugal chegar à final com a Alemanha da Merckel e dar-lhe uma tosa de todo o tamanho.

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  12. Se lhe desse uma tusa de todo o tamanho é que eu me ria.

    Agora a sério, esta foi a melhor história sobre futebol que eu alguma vez li. E é verdadeira. Muito obrigado por partilharem.

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  13. Defiance: The Story Of FC Start
    http://espn.go.com/video/clip?id=7998818&categoryid=3286128

    documentário ESPN

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  14. Já conhecia, recordei... está contada de uma forma maravilhosa. Obrigado João Carvalho

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  15. Depois de ler isto...já me apetece ver futebol outra vez.

    Obrigado.

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  16. Porra, M., adorei mesmo. Que grande texto, uma história incrível...

    Importas-te que o refira no meu blog com referência para aqui? Toda a gente deve ler isto e conhecer esta história!

    Parabéns e obrigado!

    Até estou arrepiado.

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  17. Valeu o dia. Obrigado pela história

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  18. Obrigado M., enorme texto.

    Estes homens deviam ser homenageados em todos os campos de futebol.
    FC Start, para sempre.

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  19. Grande aula para mim. Obgd

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  20. Adorei e emocionei-me ver o video no ESPN - Obrigado.

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  21. Num grande texto e numa história que nos deveria inspirar a todos, quando festejamos as vitórias e choramos nas derrotas, só uma ressalva, em relação ao massacre de Baby Yar, tão bem descrito, na sua barbárie, por D.M. Thomas no seu livro O hotel Branco. Como se sabe, a população ucraniana era maioritariamente ant-semita, e só queria sublinhar que mesmo que se tivesse sabido logo na altura da dimensão do massacre, não seria isso que iria transtornar a população ucraniana, que também considerava os judeus como uma raça inferior, infelizmente, o país dificilmente ficaria atormentado por esses acontecimentos, assim como em muitos locias da URSS não ficaram atormentados pelos pogroms que aconteciam regularmente...

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  22. Até arrepia....
    Ainda há Homens que conseguem ser humanos no meio de tanta desumanidade....

    Felisberto Costa

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